domingo, 15 de maio de 2011

Lendas do Brasil: Mãe do Ouro

Havia em Rosário, a montante do rio Cuiabá, um rico senhor de escravos, de modos rudes e coração cruel. Ocupava-se na mineração de ouro, e seus escravos diariamente vinham de lhe trazer alguma quantidade do precioso metal, sem o que eram levados para o tronco e vergastados.

Tinha ele um escravo já velho a quem chamavam pai Antônio. Andava o negro num banzo que dava dó, cabisbaixo, resmungando, pois não lhe saía da bateia uma só pepita de ouro, e mais dia menos dia, lá iria ele para o castigo. Certo dia, em vez de trabalhar, deu-lhe tamanho desespero, que saiu andando à toa pelo mato. Sentou-se no chão, cobriu as mãos e começou a chorar. Chorava e chorava, sem saber o que fazer. Quando descobriu o rosto, viu diante dele, uma mulher branca muito linda, e com uma linda cabeleira cor de fogo.
E ela falou para ele:
– Por que está triste assim, pai Antônio?

E ele falou : contou-lhe a sua desventura. 
E ela:
- Não chore mais. Vá comprar-me uma fita azul, uma fita vermelha, uma fita amarela e um espelho.

- Sim, sinhazinha.

Saiu o preto do mato às carreiras, foi à loja, comprou o espelho e as fitas mais bonitas que achou, e voltou a encontrar a mulher dos cabelos de fogo. Então ela foi diante dele, parou num lugar do rio, e ali foi esmaecendo até que sumiu. A última coisa que ele viu foram os cabelos de fogo, onde ela amarrara as fitas. Uma voz disse, de lá da água:

- Não conte a ninguém o que aconteceu.

Pai Antônio correu, tomou a bateia e começou a trabalhar. Cada vez que peneirava o cascalho, encontrava muito ouro. Contente da vida, foi levar o achado ao patrão.

Em vez de se satisfazer, o malvado queria que o negro contasse onde tinha achado o ouro.

– Lá dentro do rio mesmo, sinhozinho.

– Mas em que altura?

- Não me lembro mais.

Foi amarrado no tronco e maltratado. Assim que o soltaram, correu ao mato, sentou-se no chão, no mesmo lugar onde estivera e chamou a Mãe do Ouro.

– Se a gente não leva ouro, apanha. Levei o ouro, e quase me mataram de pancada. Agora, o patrão quer que eu conte o lugar onde o ouro está.

– Pode contar – disse a mulher.

Pai Antônio indicou ao patrão o lugar. Com mais vinte e dois escravos, ele foi para lá. Cavaram e cavaram. Já tinham feito um buracão quando deram com um grande pedaço de ouro. Por mais que cavassem não lhe viam o fim. Ele se enfiava para baixo na terra, como um tronco de árvore. No segundo dia, foi a mesma coisa. Cavaram durante horas, todos os homens, e aquele ouro sem fim se afundando para baixo sempre, sem que nunca se pudesse encontrar-lhe a base. No terceiro dia, o negro Antônio foi à floresta, pois viu, entre as abertas do mato, o vulto da Mãe do Ouro, com seu cabelo reluzente, e pareceu-lhe que ela o chamava. Mal chegou junto dela, ouviu que ela dizia:

- Saia de lá amanhã, antes do meio-dia.

No terceiro dia, o patrão estava como um possesso. O escravo que parava um instante, para cuspir nas mãos, levava chicotada pelas costas.

– Vamos – gritava ele -, vamos depressa com isso. Vamos depressa.

Parecia tão maligno, tão espantoso, que os escravos curvados sentiam um medo atroz. Quando o sol ia alto, pai Antônio pediu para sair um pouco.

– Estou doente, patrão.

– Vá, mas venha já.

Pai Antônio se afastou depressa. O sol subiu no céu. Na hora em que a sombra ficou bem em volta dos pés no chão, um barulho estrondou na floresta, desabaram as paredes do buraco, o patrão e os escravos foram soterrados, e morreram.


Lendas do Brasil: Diabinho da Garrafa

Também conhecido como Famaliá, Cramulhão, Capeta da Garrafa, entre outros nomes, este ser é fruto de um pacto que as pessoas afirmam que se pode fazer com o diabo, este pacto consiste na maioria das vezes de uma troca, a pessoa pede riqueza em troca dá a alma ao diabo.

Após feito o pacto a pessoa tem que conseguir um ovo que dele nascerá um diabinho de 15cm à aproximadamente 20cm, más não se trata de um simples ovo de galinha, e sim um ovo especial,fecundado pelo próprio diabo.

CARACTERÍSTICAS: 
 Segundo muitos o Diabinho da Garrafa tem as seguintes características:
1.Nasce de um ovo(em algumas Regiões do Brasil acredita-se que ele pode nascer de uma galinha fecundada pelo diabo), noutras Regiões acreditam que ele nasce de um ovo colocado não por galinha e sim por um galo, este ovo seria do tamanho de um ovo de codorna.
2.Para conseguir tal ovo, a pessoa deve procurá-lo durante o período da quaresma , e na primeira sexta feira após conseguir o ovo, a pessoa vai até uma encruzilhada ,meia noite, com o ovo debaixo do braço esquerdo, após passar o horário retorna para casa e deita-se na cama. No fim de 40 dias aproximadamente, o ovo é chocado e nascerá o diabinho.
3. Com o diabinho , a pessoa coloca-o logo na garrafa e fecha, bem fechado, com o passar dos anos o diabinho enriquece o seu dono, e no final da vida leva a pessoa para o inferno.

Lendas do Brasil: Matinta Perêra

Post dedicado à Bruno de Melo (Bruninho)

Se é um pássaro ou uma velha ninguém sabe explicar ao certo. O que se sabe é que quando a Matinta assobia, o caboclo respeita e se aquieta. Imitam eles, dizendo que "em dada noite estavam em tal lugar quando de repente: Fiiiiiiiiiit, matinta perera!"

Em cada localidade, a Matinta é um personagem sempre atribuído a alguma senhora de idade. Se for alguém que viva sozinha, na mata, e que não costume conversar muito, melhor ainda! Essa, com certeza, cairá na boca do povo como a Matinta Perera do local.

Dizem que de noite, quando sai para cumprir seu fado, a Matinta sobrevoa a casa daqueles que zombam dela ou que a trataram mal durante o dia, assombrando os moradores da casa e assustando criações de galinhas, porcos, cavalos ou cachorros.

Dizem ainda que a Matinta gosta de mascar tabaco. E quando lhe prometem o fumo, ela sempre vai buscar no dia seguinte, sempre às primeiras horas da manhã. Por isso, há uma espécie de macete para quem quer descobrir a verdadeira identidade da Matinta Perera: quando se ouve o assobio na mata, o curioso deve gritar bem alto: "vem buscar tabaco!". No dia seguinte, bem cedinho, a primeira pessoa que bate à porta do curioso vai logo dizendo a que veio: "bom dia, seu fulano! Desculpe ser tão cedo, mas é que eu vim aqui buscar o tabaco que o senhor me prometeu noite passada!".

Assustado, o curioso deve logo providenciar um pedaço de fumo para dar à indiscreta visita. Se não der o que prometeu, a Matinta Perera volta à noite e não deixa ninguém dormir.
Outra forma de descobrir a verdadeira identidade de uma Matinta é por meio de uma simpatia onde, à meia noite, se deve enterrar uma tesoura virgem aberta com uma chave e um terço sobrepostos. Garantem os caboclos que a Matinta não consegue se afastar do local.

Há os que dizem que já tiveram a infeliz experiência de se deparar com a visagem dentro do mato. A maioria a descreve como uma mulher velha com os cabelos completamente despenteados e que tem o corpo suspenso, flutuando no ar com os braços erguidos. Ao ver uma Matinta, dizem os experientes, não se consegue mover um músculo sequer. A pessoa fica tão assustada que fica completamente imóvel! Paralisada de pavor!

Dizem ainda que quando a Matinta Perera sente que sua morte está próxima, ela sai vagando pelas redondezas gritando bem alto "Quem quer? Quem quer?". Quem cair na besteira de responder, mesmo brincando, "eu quero!", fica com a maldição de virar Matinta. E assim o fado passa de pessoa para pessoa.


  

O Diabo e a Música

Escrito por Raphael Grizotte

Quero relatar aqui um detalhe de pouca importância mas curioso o tema da música em diferentes histórias macabras.

É fácil de imaginar por que a música sendo uma forma de expressão de divulgação íntima das intenções ou de sentimentos, sirva logicamente para qualquer meio, mas não quero aqui me referir a um gênero ou estilo musical, mas sim a comodidade que apresenta a música como coadjuvante em histórias, nada de fundo musical, somente uma parte importante, nem trilha sonora mas um outro personagem inesperado que com o diabo ou o inferno que ele possa representar, nos dá uma diversidade para as sete notas. Eu não diria se tratar de uma ferramenta como muitas que o 'mal' possa usar para conseguir o que quer, e sim uma necessidade existencial da música em todas as suas esferas.

Todas as crenças das mais distintas citam o inferno como um lugar de punição, de sofrimento que se estende ao lamento eterno; não poderia deixar de imaginar um som odioso (...Como um ranger de dentes...) que sita a bíblia. Como referência, uma viagem feita por dois poetas que desbravam os mundos inferiores (Dante Alighieri ) mostrando os nove círculos do inferno, todos os sofrimentos e os sons existentes. Como já está escrito; convém deixar toda a suspeita, todo o ignóbil sentir, que aqui seja proscrito,...e ao chegar nas portas do inferno, Dante categórico diz "Mestre, que ouço agora?"

Sem dúvida não era música o que Dante ouvira independente dos ouvidos acostumados aos mais diversos dos ruídos. Um som desses nunca poderia equiparar-se ao barulho qualquer de uma 'demoníaca festa' barulhenta que nunca acaba, acho que esse detalhe é compreensivo, mas será que num lugar assim pode-se ouvir música? Há de ser loucura, mas aqueles demônios sempre ocupados tem que aturar o hobby favorito do chefe, uma música para relaxar, por que não?

Fausto que não queria ouvir os cantos de natal, cantados pelas crianças, de repente passara a se divertir com seu novo amigo muito estranho (MEFISTÓFELES) e cheio de truques que encantava por seus atos e não deixava de tocar muito bem para animar as festas onde ele poderia dançar com sua amada e vender a alma ao diabo por motivos de amor. Fausto de Goethe é pouco musical, mas em contraponto no mesmo tema de Thomas Mann descreve o 'dr Fausto' entediado em sua vida amorosa e sonórica, assim passa a compor muito mais com a oferta de negócio feita por Mefistófeles. Como quadro de Chagall, onde um violino é sempre destacado colocando em questão a música e por outras colocando em suas pinturas um bode tocando o violino ligado diretamente as tradições Russas com suas lendas de músico diabólico.

Tenho também histórias que só aumentavam a fama de Paganini (1782-1840), um grande violinista que também vendera sua alma para o diabo, ou somente tinha uma pacto com ele que lhe respondia em suas músicas com seu talento fora do comum. Segundo muitos biógrafos, Paganini sentia verdadeira obsessão para se casar e formar uma família. Só que não o pôde com a sina dos condenados a pagar sua dívida com satan. Paganini se tornou mais famoso e popular com seu jeito obscuro e com as lendas criadas por seu dom fora do comum, que ele mesmo brincava dizendo ser o aprendiz do diabo.

Ainda sobre as histórias que rondam Paganini, um do exemplos mais clássicos é a música “Concerto para violino n.º 2 em Si menor Op. 7” - “A campainha”, que simboliza o som de uma campainha respondendo as notas feitas pelo violino como se fosse o próprio diabo a tocá-la; tema muito comum em sua época como uma forma de comunicação com o outro mundo. Paganini teve sim um filho e viveu de forma diferenciada dos homens comuns da Itália do século XVIII.

Estes contos referentes ao grande músico Niccolo Paganini, que sempre disputava somente contra seu único rival, o diabo, deve ter servido de inspiração para algumas e dúvida para outras muitíssimas histórias com o diabo querendo encenar ou disputar um solo musical.

Outro que também o coloca em sua história musical, foi Igor Stravinsky em 'A História do Soldado', baseada em temas folclóricos russos onde o diabo quer aprender a tocar em troca de um livro com um soldado muito apressado que era enganado diversas vezes por ele. Quero deduzir que o diabo além de enganar as pessoas, ainda não deixa de retirar delas algo mais que a paz e a alma. Ele teima em ter esse dom da música ao seu lado, já que na história do Soldado, o pobre acaba acompanhando e tocando o violino.

Como vivemos num mundo onde carpideiras trabalham para poder animar certos velórios, não podemos deixar de imaginar o trabalho da música para seduzir o homem, ou até mesmo um gênero musical perdido! O violino funerário obra de não-ficção de um livro chamado “An incomplete history of the art of the funerary violin” (Uma história incompleta da arte do violino funerário), verdade ou não, fato é que ainda na Suécia exista a tradição folclórica de dançar num evento muito legal. As principais atuações de “Os Azeitoneiros” aconteceram no âmbito da Halsinge Hambon, uma das competições de dança mais antigas na Suécia, baseada na lenda do encantamento de jovens ao som de um violino tocado pelo Diabo, disfarçado de homem.

Na narrativa mais comum, o diabo se apresenta para mostrar seus dotes musicais em troca de riqueza de amores impossíveis ou com seu maior prêmio, o de um violino de ouro se o músico aceitar a disputa proposta pelo diabo. Ele teria um desafio grandioso que teve sua versão no desenho animado “Futurama”. E no jogo (game Guitar Hero) na música 'The Devil Went Down to Georgia'... Mostrando assim a contemporaneidade do tema. Acho que desde que Orfeu levara sua lira ao mundo inferior, as criaturas demoníacas se acalmaram um dado momento para ele poder se destacar.

"Ó divindades do mundo inferior, para o qual todos nós que vivemos teremos que vir, ouve minhas palavras, pois são verdadeiras. Não venho para espionar os segredos do Tártaro, nem para tentar experimentar minha força contra o cão de três cabeças que guarda a entrada. Venho à procura de minha esposa, a cuja mocidade o dente de uma venenosa víbora pôs fim prematuro. O Amor aqui me trouxe, o Amor, um deus todo-poderoso entre nós, que mora na Terra e, se as velhas tradições dizem a verdade, também mora aqui. Imploro-vos: une de novo os fios da vida de Eurídice!..."

Ele sem dúvidas mostrou seus dotes depois de calar repentinamente aquele inferno, introduzindo a música que acalma as 'feras'. Esta opinião era deveras comprovada. Quem sabe assim nascera o tema por Orfeu em busca de sua amada Eurídice.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Maia (Mês de Maio)

Uma das 7 irmãs que, fugindo do gigante Órion, se transformaram no aglomerado de estrelas das Plêiades, que hoje fazem parte da constelação de Touro. Era uma ninfa que com Zeus, teve Hermes.

Maia e Hermes tinham medo da fúria de Hera, por ciúmes de Zeus. Porém não foram odiados, pelo contrário, ganharam a simpatia da deusa.

À Maia era consagrado o dia 15 de maio. Na tradição romana, Maia talvez não seja outra, diferente da ninfa de Arcádia, que personificava o despertar da natureza na primavera e que viria a se transformar na mentora de Mercúrio.

Ela é a deusa da fecundidade, e da projeção da energia vital. Maia era a ninfa que personificava os lugares frios. Também era filha de Atlas e Plêione.

Na mitologia romana, Maia era identificada como Maia Maiestas - também chamada de Fauna, Bona Dea (a Boa Deusa) e Ops -, uma deusa que pode ser equivalente à uma velha deusa da Primavera dos Primeiros povos itálicos. O mês de maio foi nomeado em sua honra; o 1º e o 15º dias de maio eram sagrados para ela.

Em 1º de Maio, o flamen (sacerdote) de Vulcano sacrificava uma porca grávida, que era um sacrifício adequado para uma deusa da Terra como a Bona Dea.

:.Um Pouco Mais de História
Era costumes enfeitar as janelas com flores amarelas (as maias). Este costume ainda se mantém em várias regiões do país: era neste mês que se realizava a festa em honra de Flora, os jogos florais, sendo coroadas com flores as mulheres que se destacassem nos jogos.
Maio era representado nas imagens dos calendários antigos por um jovem vestido de branco e verde, com uma grinalda de rosas na cabeça e, eventualmente, com uma lira numa das mãos e um rouxinol na outra.

Também originária de rituais de fertilidade e carregada de simbologia é a Maibaum, ou Árvore de Maio, que preside a "dança maio adentro", com que se dá boas vindas ao mês benfazejo.

Assim, entre a Páscoa e Pentecostes era uso saudar a primavera com cantos e instalar na praça central a Árvore de Maio, representando a Árvore da Vida.

Não é de espantar que até hoje se cultivem, até mesmo nas grandes cidades, rituais ligados ao acasalamento, em parte com origens comprovadas na pré-história. Derivado da Festa das Noivas de Maio, na Idade Média, persiste ainda o costume de depositar um galho decorado, tradicionalmente de bétula, diante da janela da amada: se ele florescer, este amor tem chances, se não... =/


Afrodite (Mês de Abril)

No princípio dos tempos, um grande estrondo despertou o mundo que apenas começou a formar-se. Era o incessante bater das gigantescas ondas que saíam da abismal profundidade do imenso mar Oceano, se agitavam e avançavam implacáveis até chocar-se contra as rochas dos escarpados, donde se batiam e troavam. A Terra retumbava na obscuridade da noite, pois os astros do Céu não a iluminavam, e o reino das sombras se estendia por todo o Universo para enche-la de desolação.

Mas, subitamente, dentre as revoltas águas do Mare Nostrum surgiu uma montanha de espuma prateada e brilhante, tão suave e etérea como os copos de neve, como as nuvens de algodão...

A rosa dos ventos abriu suas pétalas e nesse momento, desde os quatro pontos cardeais soprou uma brisa cortante que dispersou a borbulhante espuma, a arrastou tal qual as insignificantes lanugens, deixando descoberto a formosa figura da deusa Afrodite, a Vênus do mar, com seu esbelto corpo desnudo e resplandecente, e reluzente como a alva do primeiro dia do mundo.
                                                            
Nascida da espuma das ondas, nenhuma criatura, nem divina nem mortal, igualará em beleza a deusa Vênus... A luz e a claridade abrem caminho, cessa o ruído estrondoso, a paz e o silêncio se estendem pela Terra...O mito da formosura do amor e da sedução inicia seu percurso.

A deusa Afrodite encarna a beleza sensitiva e espiritual do amor, pois sua origem provém dos elementos naturais: a água do profundo mar oceano, o ar dos ventos de todas latitudes e o invisível fogo que ilumina a grandiosa claridade do primeiro dia do mundo.

De origem asiática, seu culto foi introduzido na Grécia por marinheiros e mercadores. Primitivamente, Vênus era divindade do instinto natural de fecundação e geração. Personificava o elemento úmido, princípio de fertilidade da natureza; sua ação abrangia os deuses, os homens e todas as criaturas do mundo vegetal e animal. Mais tarde, passou a ser considerada deusa do amor. Inicialmente, protegia apenas as formas mais nobres desse sentimento. Com a evolução do mito, acabou personificando o amor em seus inúmeros aspectos.

Zéfiro, o vento que soprava desde o Oeste e que dispersava pétalas de rosas e flores por todo o Universo, o filho da Aurora matinal que sai a cada manhã para anunciar um novo dia, translada rapidamente a formosa Vênus até a ilha de Chipre, donde a recolhem as donzelas que personificavam as quatro estações e a transportam para a morada dos deuses, o Olimpo.

Não obstante sua formosura, a deusa Vênus tomou por esposo Vulcano, o ferreiro Hefesto, descrito pelos narradores do mito como um deus de aspecto pouco agraciado, inclusive tinha algum defeito físico que afetava ainda mais sua figura.

Porém, Vulcano era o deus do fogo e em sua forja – escavada nas entranhas do monte Etna, acesa e ativa, ardia dia e noite – não só forjava os carros, os escudos, as couraças, flechas e espadas dos heróis legendários, o cetro de Zeus, o tridente de Netuno e a diadema de ouro e rubis de Ariadne, como também as mais vistosas jóias, engastando-lhes as pedras mais valiosas, para que as deusas as usassem quando assistiam as celebrações e banquetes. Também foi ali onde se fundiram os metais preciosos utilizados para conseguir a secreta liga com que se fabricou o sólido cofre preparado para encerrar em seu interior todos os males... porém também a esperança.

:.Jardim de Adônis
As jóias mais vistosas que criava Vulcano em sua forja as presenteava sua esposa, a deusa Vênus, de maneira que sua formosura sempre ressaltava sobre todas demais deidades.

A divinal Vênus não recusava nunca presente algum de seu esposo, mas passava os longos e cálidos dias de verão na companhia do jovem efebo Adônis – filho da relação incestuosa de uma donzela chamada Mirra com seu próprio pai -, de quem estava apaixonada.

Todos os anos, no Solstício da Primavera quando a terra se enchia de luz e vida, a deusa Vênus, com seu corpo apenas coberto por um vestido de gaza e seda transparente, saía correndo ao campo e sentava-se no alto de uma colina perto do mar para esperar o seu amado Adônis, que vinha de passar o inverno no sombrio mundo subterrâneo do reino de Hades, porém na deleitosa companhia da jovem Perséfone, esposa do deus dos infernos.

O mito narra que Marte, deus da guerra, era amante de Vênus e sentia ciúmes de Adônis, pelo que, após segui-lo quando caminhava pelo bosque, soltou contra ele um feroz javali que esquartejou com suas presas o rapaz.

Desconsolada, a formosa Vênus chorou com grande sentimento a morte de Adônis e ao caírem suas lágrimas na terra e misturar-se com o sangue de seu amado, a Terra se abriu e brotou uma flor branca que brilhava como uma estrela*. A deusa chamou “anêmona dos bosques” a essa flor tão delicada e, desde então, até os atuais tempos, quando chega a primavera, a colina do monte Líbano, no local onde a formosa Vênus esperava seu amado, se cobre com um espesso manto de ervas silvestres e de flores cheirosas: é o Jardim de Adônis, onde cresce a árvore da mirra.
 *Em outra versão, Vênus recolheu as gotas do sangue de Adônis e das próprias fez nascer a anêmona.

:.A Rede de Vulcano
Na ilha de Chipre sempre esteve Vênus acompanhada pelo Desejo e o Amor, de forma que, tanto os heróis imortais quanto os deuses, sentiam-se atraídos pelos encantos da formosa e sedutora deusa. Mas, entre os deuses, quem continuamente se encontrava com Vênus era Marte, o impetuoso deus Ares da guerra.

No leito de seu palácio na Tracia, Marte se encontrava com Vênus sempre que lhes houvessem ocasião, pelo que a infidelidade da deusa não tardou a ser descoberta pelo esposo, o ferreiro Vulcano, quem, não podendo suportar tamanha ofensa e semelhante desonra, traçou um plano para surpreender os amantes.

Narra Ovídio, na sua obra “Metamorfosis”, que foi o Sol quem descobriu os amores de Vênus e Marte, e que em seguida informou a Vulcano, o qual, ao conhecer a infidelidade de sua esposa e a traição do deus Marte, sentiu-se t
sentiu-se tão ultrajado e doido que idealizou um ardil, uma espécie de rede presa com correntes, para agarrar e castigar os dois adúlteros.
Assim pois, Vulcano começou por fabricar um artístico dossel para o leito de sua esposa, sustentado por quatro pilares de ouro cinzelado, coberto e adornado com cortinado de veludo. À Vênus lhe agradou a obra de Vulcano e, como prova disto, deitou com seu esposo e lhe encheu de felicidade durante toda uma noite de amor, tanto que o deus do fogo quase desiste de seguir adiante com seu propósito.
Mas passados os primeiros instantes de arroubamento, Vulcano prometeu a si mesmo pôr em prática a segunda parte do plano que tinha traçado e, sem mais demora, fabricou uma rede irrompível e sólida, de malha de bronze, e a fixou sobre os extremos dos dosséis do leito de sua esposa e a cobriu com cortinados de veludo. Tudo estava preparado e pronto: o peso de mais de um corpo sobre a cama faria com que a rede desprendesse e caísse.
Assim pois, certo dia, Vulcano comunicou à formosa Vênus que ficaria ausente de sua forja durante várias jornadas, já que tinha que realizar com urgência uma viagem  à ilha de Lemnos. Tal como Vulcano supunha, sua astuta esposa fingiu um pretesto para não acompanhá-lo e logo que o deus do fogo se ausentou, Vênus enviou um recado ao seu amante, pedindo que viesse a reunir-se com ela.
Feito namorados recentes, Marte e Vênus estavam desnudos no leito da deusa da beleza; estavam tão abstraídos com seus jogos amorosos que não repararam na armadilha que tinha lhes armado Vulcano, até que, de imprevisto, uma pesada rede metálica caiu em cima deles e os prendeu entre suas malhas, tão sólidas e robustas que nem o próprio e poderoso deus da guerra pode quebrá-la.
Então, apareceu diante deles Vulcano que, no instante, mandou um mensageiro até o monte do Olimpo para que todos os deuses viessem e comprovassem não só a infidelidade de Vênus mas, também, o impudor e voluptuosidade do deus Marte.
:.A Súplica dos Amantes
Marte, o deus da guerra, estava dotado de grande poder e fortaleza mas, por mais que tentasse, não foi capaz de partir, nem sequer fazer mossa ou dobrar o metal de bronze que Vulcano tinha empregado para fabricar aquela pesada rede, entre cujas malhas permanecia junto com sua amante, enredado e imobilizado.

Vênus e Marte não cessavam de suplicar a Vulcano que os soltassem. Mas, na presença de Zeus, o Deus do Olimpo, que tinha acudido prontamente a chamada do ferreiro dos deuses e que contemplava a cena em companhia de Netuno, Mercúrio, Baco e outras deidades, o deus do fogo lhes fez jurar que antes tinham ambos que devolver-lhe a honra; e sua esposa, em particular, devia lhe restituir-lhe todos os presentes que tinha ganho durante o tempo em que viveram juntos, assim como, o montante do dote que aportou ao matrimônio no dia da boda.

Netuno, deus das águas, se dirigiu aos deuses presentes na alcova de Vênus e, após olhar sem dissimular o tentador corpo desnudo da deusa da beleza, falou com voz enérgica, argumentando que devia ser Marte quem devia pagar o dinheiro do dote que reclamava Vulcano. É evidente, assinalou Netuno, que é o deus da guerra quem está preso nesta rede e quem tem coabitado com Vê preso nesta rede e quem tem coabitado com V devia pagar o dinheiro do dote que reclamava Vulcano. juntos, assim como, o montannus e degustado o mel do formoso corpo da deusa durante muitas noites, mais do que podia imaginar.

Enquanto falava, Netuno batia com seu tridente na rede metálica, fabricada por Vulcano, que mantinha presos os dois incautos amantes, Vênus e Marte.

Mas, dado que Vulcano estava muito apaixonado por sua bela esposa, o episódio acaba com o perdão, a paz e de novo o mútuo entendimento de ambos, a deusa do amor e o deus do fogo.

Marte, o deus da guerra, uma vez libertado da rede de bronze que lhe aprisionava, partiu para seu palácio e não voltou a ver a deusa Vênus.

Dessa relação nasceu: Deimos, Fobos, Cupido e Harmonia.

:.O Cinturão Mágico de Vênus
Porém, as promessas de fidelidade de Vênus duraram pouco e foram tão efêmeras como a espuma do mar que, na origem dos tempos a engendraram. De forma que, de pronto, outros deuses e heróis, mortais e imortais, além de reis e soberanos que governavam extensas terras, se deitaram com a deusa do amor e da beleza.

Havia uma razão que explicava porque todos que miravam de perto a deusa sentiam-se cativados pelos seus encantos e a desejavam. O mito narra que essa atração surgia porque a deusa levava cingido em sua cintura um cordão mágico dourado que exercia um feitiço sedutor a sua volta, despertava as paixões dos deuses e dos mortais e era desejada pelos mais belos efebos.

O cinturão dourado de Vênus realçava seus encantos físicos e era um dos principais atributos da deusa do amor e da beleza.

Entre os pretendentes que alcançaram os favores da deusa Vênus, mesmo só por uma noite, há deuses e mortais; Mercúrio, com quem teve Hermafrodito; Baco, que lhe fez mãe de Priapo...

Menção especial merece o célebre escultor Pigmalión, que tinha fama de recusar toda relação íntima ou afetiva, fossem com mulheres mortais ou deusas. Mas tendo realizado uma estátua feminina com as formas tão perfeitas, que só faltava mover-se, respirar e sentir, se apaixonou por ela, chamando-a Galatea, e pediu a Vênus que desse vida a tão magnífica figura. Então, Vênus se transformou em Galatea, e imediatamente a estátua tomou vida e se converteu em uma mulher tão formosa que despertou a libido de Pigmalión que se deitou com a deusa sem sabê-lo, pois pensava que o fazia com a estátua vivente.

Também o filho do Sol, o jovem Faetão, de quem se diz que não pôde controlar seus cavalos desloucados quando conduzia seu carro de fogo, pelo que esteve a ponto de incendiar a terra, se apaixonou pela formosa Vênus e gozou de seus encantos. No relato do mito de Faetão se descreve como o jovem foi fulminado pelo raio de Zeus, já que o deus quis evitar, assim, que a terra ardesse e ficasse reduzida a cinzas. Não obstante, parece que, na verdade, Zeus infligiu o maior castigo a Faetão para vingar-se de seu pai Helios, o Sol, cuja indiscrição o converteu em delator ao informar Vulcano dos devaneios amorosos da sua esposa Vênus.

:. O Príncipe Anquises
Os hinos homéricos recolhem o episódio mitológico doas amores de Vênus com o jovem mortal Anquises, príncipe de Tróia.

Encontrando-se o jovem Anquises no monte Ida, viu aproximar-se uma formosa moça. Vinha vestida com as ricas roupagens de uma rainha, e adornada de jóias que reluziam mais do que o ouro e a prata. Todo o seu corpo exalava um perfume fino e embriagador...

"Saúdo a recém-chegada". Falou, e disse que estava indo em direção a suas terras do Helesponto e Frigia, de onde era princesa.

Anquises ficou cativado pela formosura da jovem e quando escutou sua voz, esta lhe pareceu tão clara e suave como as águas dos arroios dos mananciais que nasciam no cimo das montanhas e escorriam até o vale.

Anquises convidou a jovem a entrar em sua cabana e ao contemplá-la desnuda se cativou ainda mais por ela. Os dois amantes rolaram durante a noite toda num leito de peles e quando, na manhã seguinte, Anquises acordou, a formosa jovem lhe revelou que ela era  na verdade a deusa Vênus e que devia manter em segredo que tinha se deitado com ela.

Passou o tempo e Anquises, por ocasião de um ágape entre amigos, celebrado no seu palácio, alardeou que tinha se deitado com a deusa Vênus. E no mesmo instante, Zeus enviou seu fulminante raio contra o indiscreto jovem, mas Vênus o desviou para que não alcançasse de cheio Anquises, porém lhe passou tão perto que ficou maltratado e debilitado para sempre.

Dessa noite de amor entre Anquises e Vênus nasceu o grande herói Eneas, cujas ações e façanhas narrara o grande poeta latino Virgílio, na sua obra Eneida.

Finalmente, se conta que, após soltar uma tormenta para ocultar-lhe, os deuses transportaram o herói Enéas ao céu e o sentaram no trono dos imortais.

:.Vênus - Mármore dos Artistas
Vênus de Milo
As representações e a iconografia da deusa Vênus, Afrodite grega, são muito ricas e variadas. Ao longo dos tempos numerosos artistas, além dos antigos gregos e romanos, a têm tomado como modelo para a realização de seus trabalhos. E tem sido, a deusa do amor, uma fonte inesgotável de inspiração para seus quadros, esculturas e outras obras estéticas.

Vênus inspirará paixões na arte, na literatura, na música, no teatro... Inclusive os imperadores romanos invocavam o nome da deusa da beleza para incutir valor a seus soldados antes da batalha: "Venus Victrix", Vênus Vitoriosa.

Na antiguidade clássica, Vênus foi representada por Fídias numa escultura onde aparecia vestida. Enquanto que os prestigiosos escultores Praxíteles e Escopas, que introduziram o padrão grego da proporção e perfeição nas formas, faz mais de dois milênios, consideraram a deusa Afrodite o modelo de beleza feminina e a representavam saindo do mar com um dos braços e o peito esquerdo desnudos, apenas coberta com um véu transparente.

Entre as estátuas de Vênus feitas em mármore por artistas da antiguidade, destaca-se a Vênus de Médicis, a Vênus do Capitólio, a Vênus de Cnido...

Porém, sem dúvida, a Vênus de Milo, que se encontra no Museu do Louvre, é uma das estátuas da deusa do amor mais conhecidas e divulgadas. Data do século segundo, antes da nossa era, e está lavrada em mármore.

A estátua tal qual está hoje, foi descoberta em princípios do século dezenove por um camponês grego quando trabalhava em suas terras, na ilha de Melos. É uma peça talhada helenística, lavrada com maestria, mimo e cuidadosos detalhes.

A figura mede dois metros de altura e, originalmente, um dos braços repousava sobre um pilar de mármore que tinha gravado na base o nome de Alexandros de Antioquía, realizador de tão criativo conjunto escultural.

Neste mesmo lugar, Melos, se encontrou também uma mão que levava uma maçã e que, segundo parece, pertenceu a estátua de Vênus. Daí que se pense que o artista chamara Vênus da Maçã à tão singular escultura, pois "melos", em grego, significa maçã, atributo da Vênus da fertilidade dos campos, junto com as rosas, a romã, as flores e os bagos das murtas ou mirtos.

:.O Juízo de Paris
A maçã, enquanto símbolo mitológico relacionado com a beleza, a tentação, a paixão e o desejo, aparece também no relato do denominado "Juízo de Paris", um dos episódios mitológicos mais célebres e populares, que mostra como a Discórdia, mediante um simples estratagema, consegue chamar a atenção dos convidados de uma faustosa boda.

Tudo isto, por exemplo, pode-se observar no célebre lenço de Rubens, que ilustra o mito da maçã de ouro que a Discórdia, por vingança, lançou no meio da grande sala do palácio onde estava se celebrando o banquete da boda da formosa ninfa do mar, a nereida Tetis, com o rei Peleo. Todas as deidades haviam assistido a esta boda, exceto a deusa Éride, a Discórdia, pois os anfitriões se esqueceram de convidá-la.

A maçã levava escrita a frase "Para a mais formosa.", pelo que os presentes elegeram Paris como juiz, filho do rei de Tróia, para que decidisse quem era a mais bela das três deusas que ali se encontravam: Hera, Atena ou Afrodite.

Hera ofereceu ao jovem Paris todos os reinos da Terra, se fosse eleita; Atena lhe prometeu sair sempre vitorioso e sem ferida alguma de todas as guerras contra seus inimigos; enquanto que Afrodite lhe assegurou que conseguiria namorar a mais formosa das jovens mortais, a bela Helena de Tróia.

Paris, que estava cativo da formosura de Helena, se decidiu por Afrodite e, então, Hera e Atena se indispuseram com ele para sempre. A partir daí, ambas as deusas ficariam do lado dos gregos que lutavam contra os troianos, enquanto que Afrodite ajudaria os troianos. Segundo o mito clássico, este fato, unido ao episódio do rapto de Helena, originaria a guerra de Tróia.


Mitologia - Deuses e Heróis
F&G Editores
2002

Dicionário de Mitologia Greco-Romana
Abril Cultural
1973

domingo, 3 de abril de 2011

Gueixa

Muito se fala e se discute, principalmente no ocidente, sobre a figura e o papel da gueixa na sociedade japonesa. Na prática, poucos ocidentais, e mesmo japoneses, têm efetivamente contato com uma gueixa. Em público, elas só aparecem em poucas ocasiões, como no Jidai Matsuri (Festival das Eras), e na temporada de danças tradicionais Kamogawa Odori (Danças do Rio Kamo) que ocorrem em outubro, em Kyoto. Fora tais ocasiões, alguns sortudos turistas conseguem vê-las andando pelas ruas, nas raras ocasiões em que elas saem para ter aulas de dança, shamisen (cítara de três cordas tradicional) ou ikebana (arranjo floral), ou a caminho de um restaurante para entreter algum empresário ansioso em impressionar seus convidados. Ser servido ou entretido por uma gueixa, mesmo entre os japoneses, é privilégio de poucos.
O fascínio pelo assunto no ocidente começou através de artigos de jornais e da arte, do teatro e da literatura a partir da segunda metade do século XIX, quando o Japão passou a abrir seus portos às potências ocidentais, terminando um isolamento comercial e cultural que durou mais de 200 anos. As gravuras ukiyo-e (retratos do mundo flutante) tornaram-se bastante populares e apreciadas na Europa, em especial por artistas plásticos na França. Vendidas em folhas avulsas ou até encadernadas na forma de um livro sanfonado, tais gravuras freqüentemente retratavam gueixas, havendo até artistas que se especializaram em desenhá-las, como Kiyonaga e Utamaro, formando um "estilo" dentro do ukiyo-e chamado de bijin-ga (desenho de mulher bela). Relatos de viajantes e correspondentes publicados em jornais de um Japão tão diferente e exótico eram lidos com grande curiosidade.
Em 1904, o compositor italiano Giacomo Puccini criou a ópera "Madame Butterfly". Inspirada num caso verídico, a ópera conta a trágica história de uma gueixa, Cho-cho ("borboleta" em japonês), que se apaixona por Pinkerton, oficial americano em missão no Japão. Acreditando ser esposa de Pinkerton, ela tem um filho mestiço e passa a sofrer o preconceito dos japoneses. Ele é chamado de volta aos Estados Unidos, e acreditando nos democráticos valores com que seu amado descrevia o ocidente, Cho-cho aguarda seu regresso ao Japão na esperança de ir viver com ele e seu filho na América. Mas Pinkerton volta casado com uma americana e deixa Cho-cho, que acaba se matando. Até hoje extremamente popular, "Madame Butterfly" não apenas tornou Cho-cho a gueixa ficcional mais famosa do mundo, como também serviu de inspiração para filmes e outra peça de sucesso 80 anos depois: o musical "Miss Saigon", de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg.
A ficção e diferenças culturais fizeram com que a idéia que o ocidente tem das gueixas seja distorcida, pouco correspondendo com a realidade. Muitos, principalmente os incultos, acham que uma gueixa nada mais é do que uma exótica prostituta de luxo - algo que choca os japoneses, que as consideram refinadas guardiãs das artes tradicionais. Para os japoneses, achar ou tratar uma gueixa como se ela fosse uma mera garota de programa é uma atitude que revela não só falta de critério, mas de cultura e "berço" de quem assim age. Na sociedade japonesa, a gueixa é objeto de admiração e respeito. Elas dão status aos lugares que vão e às pessoas com quem se relacionam - um status que é mais ligado à tradição que à moda.
Entender o que é, ou o que faz uma gueixa ser uma gueixa, é difícil para os que pouco conhecem o Japão, a história, a cultura e a sociedade do país. A existência da gueixa só pode ser compreendida no contexto japonês, assim como ela é produto do que o Japão foi e é.

ORIGEM DAS GUEIXAS
O surgimento da gueixa tem muito a ver com a maneira pela qual a sociedade japonesa foi organizada durante o governo dos xóguns da família Tokugawa, também conhecido como a Era Edo (1603 - 1867). No século XVII, nas primeiras décadas do estabelecimento do xogunato, crescentes medidas de controle da vida civil foram tomadas objetivando não só estabilidade interna, mas a manutenção do clã Tokugawa no poder, o que deu à sociedade como um todo uma forma feudal, rígida e hierarquizada, de pouca mobilidade de uma classe a outra e fechada em si mesma. Influências externas, como o cristianismo, eram vistas como negativas e subversivas, de tal modo que em 1637 um édito do xogunato ordenou a proibição do comércio e da vinda de navios europeus (excetuando os holandeses da Cia. das Índias, que eram tolerados por não misturar religião ao comércio, e que ficavam isolados em uma ilha perto de Nagasaki) e a expulsão dos estrangeiros, impondo um isolamento do Japão que se estenderia por dois séculos.

PROSTITUIÇÃO LEGALIZADA
No ocidente, considera-se prostituta a mulher que mantém relações sexuais mediante pagamento. Basta a mulher fazer isso uma só vez, que ela acaba sendo considerada prostituta sempre. No Japão, é necessário saber se a mulher vive disso, ou seja, para ser considerada prostituta é preciso que ela faça das relações sexuais mediante remuneração sua principal fonte de renda. Se uma mulher tem amantes mas obtém renda de atividade diversa da relação sexual paga, ela não é considerada prostituta. Tal distinção não é meramente conceitual. Ela foi necessária na instituição da prostituição legalizada no Japão feudal.
Com paz interna, a vida urbana no Japão floresceu graças à estabilidade e ao sankin-kõtai (presença alternada), sistema criado em 1635 pelo governo que obrigava os daimyõs (senhores feudais das províncias) e seus samurais a morar em Edo (atual Tóquio) por alguns meses. Com hordas de daimyõs e samurais indo e vindo pelo país, vilas e cidades se prepararam para fornecer produtos e serviços aos viajantes e o comércio prosperou. Éditos do xógun passaram a impor rigorosa organização nas cidades, intervindo até em aspectos dos mais particulares da vida civil.
No Japão feudal, casamentos eram arranjos de interesses entre famílias, e não uniões por amor. Assim, a maioria dos homens considerava que sexo com as esposas era "por dever", ou seja, para procriação e preservamento da família ou clã. Sexo com prostitutas, por outro lado, era "por prazer", ou seja, sem responsabilidades. Não tendo as próprias religiões locais (o budismo e o xintoísmo) fortes restrições ao sexo comparadas às religiões ocidentais (de base judaico-cristã), a tolerância à prostituição era grande na sociedade feudal japonesa. Longe de casa e das esposas, samurais ávidos por diversão invadiam as cidades. Assim, foram criados os "bairros do prazer", onde se concentravam teatros, restaurantes, pensões - e os bordéis. Concentrados, até cercados com muros e portões, as autoridades tinham mais controle sobre tais bairros, seja sob o caráter repressivo, seja sob o tributário. Enquanto não legalizada, a prostituição nada rendia ao poder público, mas criando bordéis oficiais a atividade passou a ser lucrativa também para o governo.
As profissionais do sexo, genericamente chamadas de jorõ (prostituta, cortesã), passaram a ser obrigadas a morar em bordéis, que passaram a ser administrados como pequenas empresas e onde havia uma hierarquia interna. As mais jovens eram chamadas de yûjõ (mulher do prazer) e as mais experientes eram as oiran ou age-jorõ, que eram letradas e eram responsáveis pela organização e administração do bordel. As age-jorõ eram acima de tudo versadas nas chamadas "artes do sexo", que mantinham como um conhecimento secreto e exclusivo. Há registros de que uma prostituta, para chegar a age-jorõ precisava, por exemplo, conhecer as "48 posições do prazer", saber quais mariscos, peixes e raízes serviam de afrodisíacos, e como agradar um homem fingindo um convincente orgasmo (quanto mais homens ela pudesse atender em um dia, maior era o lucro, e para tanto ela precisava se preservar). Uma das técnicas secretas mais exóticas e chocantes era o seppun, o "ato sexual com a boca". Nós chamamos isso de beijo.
Mas é de conhecimento universal de que onde há regras, controle e cobrança de impostos, há também os que procuram meios de burlar o sistema. As mise-jorõ (prostituta de loja) normalmente eram serviçais em restaurantes e pensões, que patrões ofereciam aos clientes para favores sexuais como um "serviço por fora", conseqüentemente, livre de impostos. Como formalmente as mise-jorõ eram arrumadeiras ou garçonetes, elas não eram consideradas prostitutas, e assim não eram obrigadas a viver num bordel. Prostitutas que não queriam viver num bordel, ou sujeitar-se a um patrão-cafetão, arriscavam-se procurando clientes longe dos bairros do prazer. Uma característica das prostitutas de rua da época era uma esteira de palha, que elas carregavam enrolada debaixo do braço para rapidamente poder atender um cliente num lugar mais discreto ou no meio do mato. Podendo ser presas por prostituição ilegal, ao avistar um policial elas se apressavam a esconder ou livrar-se da esteira.
Vários bordéis oficiais no Japão feudal estavam longe de ser casas apertadas em vielas escuras, com cubículos espartanos e sujos. Eram limpos, espaçosos, agradáveis; alguns até tinham estrutura para promover banquetes. Era mantendo tal atmosfera que as prostitutas procuravam atrair uma clientela grande e freqüente, e para entreter os clientes também chamavam gueixas - homens e mulheres - para tocar, dançar e cantar. Embora as yûjõ e as jorõ fossem o principal motivo da presença da clientela e fossem as "donas da casa", eventualmente um ou outro cliente acabava se interessando pela - ou pelo - gueixa, o que obviamente criava rivalidade entre prostitutas e gueixas. Além disso, enquanto as prostitutas eram obrigadas a morar em bordéis seguindo regras de hierarquia e não podiam deixar os limites dos bairros do prazer (para evitar que saíssem, elas só podiam andar nas ruas escoltadas), os e as gueixas não sofriam tais restrições. Tais fatores causavam um tipo de "concorrência desleal", e por isso as prostitutas faziam segredo de seu arsenal de técnicas erotizantes. A situação entre gueixas e prostitutas só se tornou mais definida a partir de 1779, quando um decreto do governo reconheceu a profissão de gueixa.

DEFININDO O ESPAÇO DA GUEIXA

Em 1779, a gueixa foi reconhecida como praticante de uma profissão distinta da prostituição e foi criado o kenban, um tipo de cartório específico para registrar gueixas e fiscalizar o cumprimento das regras que a partir de então passaram a reger a profissão. Apenas gueixas registradas no kenban eram reconhecidas e tinham autorização para trabalhar. Algumas regras que as gueixas passaram a ter que seguir eram parecidas com as das prostitutas, como a obrigatoriedade de viver nas okiyas (casas de gueixas). Mas outras as diferenciaram das prostitutas. É importante observar que as prostitutas tinham prioridade em relação às gueixas na sociedade japonesa da época, pois a função e situação delas já estava definida há tempos. Assim, muitas das regras do kenban visavam limitar o que as gueixas podiam fazer.
Como artista, a gueixa tem a obrigatoriedade de ser versada em música, dança, canto e literatura - a prostituta não. A prostituta vestia-se com os quimonos mais brilhantes, estampados e extravagantes que tivesse - a gueixa foi proibida de usar tais quimonos e obrigada a ter um visual mais discreto. As prostitutas usavam até uma dúzia de kanzashis (grandes espetos decorativos para o cabelo, considerados jóias) e até três pentes de casco de tartaruga na cabeça - a gueixa foi limitada a três kanzashis e um pente. As gueixas foram proibidas de usar o obi amarrado na frente, que se tornou característico das prostitutas (como a prostituta vestia-se e despia-se várias vezes ao dia, era mais rápido e prático amarrar o obi na frente do que atrás). E as gueixas foram proibidas de dormir com os clientes das prostitutas.
Se uma prostituta acusasse uma gueixa de roubar seu cliente, o kenban fazia uma investigação, e se a gueixa fosse considerada culpada, ela podia ser suspensa ou expulsa da profissão. Para evitar que uma gueixa fugisse da casa de gueixas, ou caísse na tentação de dormir com um cliente das prostitutas, elas foram obrigadas a andar com a escolta de um homem de confiança da responsável pela okiya onde ela vivia.
O controle do governo sobre a sociedade civil atingiu em especial as mulheres. Excetuando os papéis de mãe, esposa e dona de casa, não havia uma profissão que uma mulher pudesse exercer, que não fosse na condição de auxiliar de seu marido na agricultura, ou num comércio dirigido pelo esposo - trabalhos que eram considerados "obrigação" da mulher e que, por isso, não recebia uma remuneração específica. A falta de opções de profissões para as mulheres foi agravada em 1629, quando por lei o xógun tornou o teatro uma atividade proibida às mulheres. Impedidas de praticar atividades de entretenimento em público, os palcos foram rapidamente ocupados por homens travestidos, para substituir a presença feminina em cena. Não tendo um marido ou uma família que a sustentasse, restava à mulher apenas a prostituição como meio de subsistência.
A palavra geisha significa literalmente "pessoa da arte, artista", e ela foi originalmente usada para designar comediantes e músicos que se apresentavam em banquetes e festas particulares no século XVII. Assim, as primeiras gueixas não foram mulheres, mas homens. Os otoko-geisha (artistas masculinos) eram especializados em entreter pequenas platéias em festas, dançando, cantando contando histórias e piadas. Como os palcos estavam proibidos às mulheres, as festas privadas tornaram-se os únicos lugares onde as mulheres podiam tocar música, dançar e cantar, e assim surgiram as onna-geisha (artistas femininas).
Entretanto, aquela era uma época em que a atividade artística e prostituição se confundiam. Donos de pousadas e de casas de chá ofereciam suas funcionárias, que de dia eram arrumadeiras e garçonetes, como prostitutas à noite, ao que se dava o sutil nome de "serviço de travesseiro". Nem sempre se tratava de prostituição voluntária - patrões inescrupulosos diziam às empregadas "agrade o cliente ou vá embora". Em sua origem o teatro kabuki era predominantemente feminino, porém muitas dançarinas de kabuki se prostituíam e escândalos de samurais envolvidos com elas na capital foram a causa da proibição de 1629. Assim, a clientela dos banquetes não esperava menos das mulheres artistas. Embora durante muito tempo a atividade de gueixa confundiu-se com prostituição, a partir do século XVIII medidas que oficializaram e regulamentaram a prostituição acabaram distinguindo as prostitutas das gueixas.
As restrições do kenban moldaram não só a aparência, mas o que efetivamente a gueixa se tornou e é atualmente. Para ter condição de artista, as gueixas passaram a dedicar enorme tempo ao estudo e treinamento em artes, e passaram a ser valorizadas e remuneradas como entertainers. Proibidas de ter a aparência rica mas aperuada das prostitutas, as gueixas tornaram-se mestras da elegância, da beleza discreta e da sensualidade insinuada. Atrair os homens era, como ainda é, básico para elas formarem uma clientela, mas sexo não era, como ainda não é, a finalidade pela qual os japoneses contratavam uma gueixa - para isso existem as prostitutas. Diferentemente das prostitutas, gueixas podiam se recusar a ter sexo com um cliente, mas não se podia evitar que gueixas tivessem relacionamentos sexuais com seus próprios clientes (desde que não fosse cliente de uma prostituta, tudo bem). Com o tempo, a figura do homem de escolta foi substituída pelo camareiro - um profissional especializado em vestir gueixas.
Por volta de 1780 ainda haviam otoko-geisha, embora as mulheres fossem esmagadora maioria na profissão. No início do século XIX, gueixa era invariavelmente uma mulher.

GUEIXAS CHEGAM À MESA
Tocar, cantar, dançar e contar histórias para entreter os comensais num banquete. Essa era a principal atividade exercida pelas gueixas. Sentar-se à mesa e fazer companhia para os homens era algo que só as prostitutas faziam - mesmo porque elas queriam garantir que seus clientes quisessem sua companhia após o jantar. Mas aos poucos, os próprios clientes passaram a pedir que as gueixas também se sentassem à mesa. Educadas e cultas, as gueixas tornavam a conversação mais agradável e o tempo fluía mais rápido. Com as gueixas, os clientes conseguiam um tipo de relacionamento que não conseguiam ter com suas esposas, ou mesmo com as prostitutas. E nem sempre os homens que íam aos banquetes queriam fazer sexo depois de comer. Percebendo que muitos queriam apenas distrair-se, ou quando muito flertar, as gueixas descobriram seu público.
Para formar clientela própria, as gueixas passaram a evitar os bordéis e concentraram suas atividades em restaurantes e casas de chá, ou abriam suas próprias casas de chá. Por volta de 1840, uma gueixa chamada Haizen decidiu aprender um pequeno ofício que era executado até então somente por homens: servir saquê à mesa. Haizen passou fazer o mesmo, bem como fazer companhia à mesa aos convivas. Ela rapidamente tornou-se a gueixa mais requisitada de Kyoto e todas passaram a fazer o mesmo. Desde então, as gueixas vêm desempenhando o papel de anfitriãs em banquetes, servindo bebidas e conversando com as pessoas, além de dançar, cantar, contar histórias e fazer jogos de salão.
Durante o bakumatsu, os anos do ocaso da Era Edo, as casas de chá de gueixas foram estratégicas para a organização do movimento que restaurou o poder ao Imperador e destituiu o xogunato Tokugawa. Contando com a discrição e o voto de segredo das gueixas, as casas de chá tornaram-se importantes locais de reunião para os "conspiradores", uma vez que reuniões estavam proibidas pelo governo feudal. Nas casas de chá e restaurantes entretanto, era totalmente aceitável a movimentação de clientes e pequenas aglomerações, e isso encobria eventuais reuniões políticas. Quando o Imperador Meiji subiu ao trono em 1867, a colaboração das gueixas não foi esquecida. Na Era Meiji (1868 - 1912) promoveu-se rápida e intensa ocidentalização e modernização do Japão, com a implantação de ferrovias, indústrias, a adoção de vestimentas ocidentais e a proibição de costumes que, apesar de arraigados há séculos na cultura japonesa, foram abolidos por constranger os ocidentais, como a poligamia e pintar os dentes de preto. As gueixas, entretanto, não só permaneceram intocadas, como foram promovidas pelo próprio governo como símbolos da melhor e mais bela tradição japonesa.

PRESTÍGIO E INFORTÚNIOS

As gueixas tornaram-se símbolo de uma invejável independência, que as demais mulheres no Japão de então não tinham. A partir da Restauração Meiji elas passaram a desfrutar de prestígio, tendo contato com os políticos mais influentes e os empresários mais bem-sucedidos, e de um estilo de vida glamuroso. O que elas usavam virava moda e eram imitadas por outras mulheres - o que fez com que os quimonos continuassem sendo usados pelas mulheres por mais tempo que os homens, que rapidamente adotaram o vestuário ocidental.
Gueixas viviam com luxo, freqüentavam festas, não faziam trabalhos domésticos nem cozinhavam, dedicavam-se à dança e à música, podiam ter vida sexual e não precisavam se casar. Aliás, o karyukai, o mundo da gueixa, era, como é até hoje, um mundo dominado pelas mulheres numa sociedade machista. Gueixas eram as "supermodels" da época. Tarõ Katsura, Primeiro-ministro do Japão de 1908 a 1911, assumiu uma gueixa, Okoi, como amante. O oligarca Kido Kõin casou-se com uma gueixa de Gion, Ikumatsu. Outro importante membro do governo foi mais além: o Ministro das Relações Exteriores, Barão Mutsu, casou-se duas vezes, e em ambas com gueixas. Ter uma gueixa como amante ou esposa tornou-se símbolo de status.
Se ter um rico e influente japonês como danna("patrono", amante de uma gueixa) ou marido assegurava à gueixa uma vida de conforto e prestígio, há entre as gueixas a idéia de que unir-se a um estrangeiro dá no oposto, podendo até terminar em tragédia. Tal crença é baseada na vida de algumas gueixas, que tornaram-se famosas por suas tristes histórias. A mais conhecida é a de Okichi, gueixa designada pelo xogunato para servir Townsend Harris, primeiro diplomata americano enviado ao Japão em 1856. Aparentemente ocorreu que Harris levou Okichi para sua casa em Shimoda, e com isso a gueixa entendeu que Harris a assumira como esposa, conforme os costumes japoneses da época. Harris, entretanto, sendo ocidental, sempre considerou Okichi uma mera cortesã, e mesmo tendo vivido anos com ela, sequer a mencionou em seus diários. Em 1862, Harris demitiu-se de seu posto e voltou para os Estados Unidos, abandonando Okichi, que cometeu suicídio. Até hoje, as gueixas de Shimoda prestam homenagem a Okichi, visitando seu túmulo. A história de Harris e Okichi inspirou Puccini a criar a ópera "Madame Butterfly", e teve uma versão romanceada numa produção de Hollywood em 1958, "O Bárbaro e a Gueixa", com John Wayne no papel de Harris.                               
Há também a história de Yuki Morgan, gueixa que casou-se com o milionário americano George Morgan. Sobrinho do banqueiro magnata J. Pierpont Morgan, George conheceu Yuki no Japão enquanto fazia uma viagem ao redor do mundo na época da 1ª Guerra. Apaixonou-se pela gueixa e decidido a casar-se com ela, liberou-a da okiya à qual ela era ligada - foi o primeiro estrangeiro a fazê-lo - pagando a considerável soma de 20 mil dólares (cerca de 250 mil dólares em valores atualizados). Assim que se casaram, George e Yuki foram morar em Nova York, onde não foram bem recebidos. Mesmo sendo milionário, Morgan sofreu forte preconceito contra sua esposa japonesa, e decidiram então morar na França, onde viveram por 10 anos, até o prematuro falecimento de Morgan. Quando Yuki voltou ao Japão, os militares tinham assumido o poder, invadido a Manchúria e se preparavam para a guerra, e ela foi discriminada por ter se casado com um estrangeiro e vista como espiã americana. Yuki foi perseguida pelo governo, passou dificuldades no Japão durante a 2ª Guerra, e viveu em Kyoto até falecer aos 80 anos.

BONS ANOS E TEMPOS DIFÍCEIS
Nas décadas de 1920 e 1930, o Japão passou por um período de grande prosperidade econômica. Políticos, industriais, banqueiros, empresários e a ascendente classe dos militares de alta patente tornaram-se assíduos e generosos clientes de gueixas, formando uma elite vista pela sociedade japonesa como mecenas das artes. O status que a gueixa tinha e dava aos clientes inspirava muitas mulheres a seguir a profissão, embora poucas efetivamente conseguissem entrar para o reservado mundo do karyukai. Mesmo assim, em 1920, haviam 80 mil gueixas registradas ainda nos moldes do kenban no Japão. Foi o auge da população de gueixas no país.
A demanda por gueixas era tão alta, que gerou práticas perversas. Casas de gueixas administradas por okaasans ("mães", modo pelo qual as gueixas mais velhas administradoras das casas são chamadas)  gananciosas e interesseiras, tornaram-se senzalas douradas para meninas e adolescentes. Sempre lembradas do enorme investimento que representavam para a okiya, como se tivessem assinado uma dívida pelo resto da vida, as maikos eram exploradas pelas okaasans, que para sugar ao máximo seus ricos clientes criaram os chamados "leilões de virgindade". Quando uma maiko chegava aos 16 anos, a okaasan contatava seus clientes e lhes oferecia a gueixa pela melhor oferta. Pouco interessava se a jovem concordava ou não com a transação, e fugir de nada adiantava. A deserção de uma gueixa era vista pela sociedade como um ato de traição à okiya - até os pais das gueixas as delatavam ou as mandavam de volta. Sabe-se que nos anos 30 a virgindade de uma maiko chegou ao valor recorde de 850 mil dólares. Mesmo criticados pela imprensa, por reduzir a nobre profissão da gueixa à condição da mera prostituição, os "leilões de virgindade" continuaram sendo cínicamente praticados até a 2ª Guerra Mundial. Com a ocupação americana, tal prática passou a ser considerada abusiva, e as okaasans, temendo o fechamento de suas casas, imediatamente aboliram os ditos "leilões".
Se durante a Era Meiji as gueixas estavam na vanguarda da moda japonesa, a partir da década de 20 elas passaram a sofrer concorrência com o constante aumento da ocidentalização dos costumes no país. Em plena Era do Jazz e das melindrosas, bares à ocidental tornaram-se extremamente populares pelo Japão e surgiram as jokyûs (garotas de cafés): moças que vestiam kimonos de uso cotidiano com aventais ou à ocidental, e que serviam de garçonetes e de acompanhantes para os clientes - as precursoras das atuais "bar hostesses". Para se distinguir das jokyûs, as gueixas decidiram não se "modernizar", e assumiram definitivamente o papel de praticantes do tradicional. Desde então, modismos ocidentalizados passaram a ser desprezados pelas gueixas. A imagem de personificações da tradição fez a atividade das gueixas prosperar nas décadas de 20 e 30, período em que o nacionalismo exacerbado foi extremamente alimentado pelo governo no Japão, e tudo aquilo que representava "tradição" era valorizado.
Nos anos 40, à medida em que o Japão mergulhava na 2ª Guerra e aumentava a escassez de produtos básicos e alimentos, as gueixas continuavam com seu trabalho e estilo de vida glamuroso - as okiyas mais prósperas eram justo as que tinham como clientes empresários ligados ao governo e membros dos altos escalões militares. Isto certamente contrastava com a austeridade e os sacrifícios impostos ao resto da população civil, conclamada ao esforço de guerra "pela pátria e pelo Imperador". De súbito, em 1944, o governo determinou o fechamento de casas de chá e de bares, e proibiu as gueixas de trabalhar como gueixas. Todas as mulheres - inclusive as gueixas - tiveram que ir trabalhar nas fábricas pelo esforço de guerra. Esta situação durou até outubro de 1945, quando o governo de ocupação americano autorizou a reabertura das casas de gueixas.
O período do governo de ocupação americano (1945 - 1952) trouxe uma série de novos desafios para a gueixa. A derrota na guerra causou, além da falência das instituições, a falência de boa parte dos clientes das gueixas. Uma nova clientela teve de ser conquistada, e elas procuraram os oficiais americanos. Se antes as gueixas desprezavam tudo que representava o ocidente, agora elas procuravam aprender inglês e músicas americanas. O choque de culturas foi inevitável, e chegou a ser objeto de filmes produzidos em Hollywood nos anos 50, como "A Casa de Chá do Luar de Agosto". Mas o problema maior ocorreu entre os soldados e militares de baixa patente. Ao saber que gueixas compareciam às recepções e jantares dos oficiais, sem presenciar ou entender o que as gueixas exatamente faziam em tais ocasiões, soldados americanos passaram a achar que "gueixa" significava "prostituta" em japonês, e quando saíam à procura de mulheres - que nada mais eram que moças comuns famintas tentando sobreviver no caos do pós-guerra - perguntavam se elas eram uma "guíxa" (a pronúncia que usavam para "geisha"). Como normalmente a resposta era um aceno afirmativo com a cabeça, os soldados passaram a acreditar que as garotas que arranjavam eram "guíxas", e com isso tornou-se popular no ocidente a idéia de que gueixas eram simples prostitutas com aparência exótica.
Embora o governo de ocupação tivesse promulgado uma nova Constituição para o Japão em 1947, os americanos mantiveram em vigor as antigas regras da prostituição legalizada, com bordéis oficiais para os soldados. Embora tais estabelecimentos nada tivessem a ver com as okiyas e as casas de chá, os soldados logo as apelidaram de "guíxa houses". A prostituição no Japão deixou de ser legalizada em 1952, ao final do governo de ocupação. A atividade da gueixa quase se extinguiu neste período difícil, mas sobreviveu. Sua imagem, entretanto, foi manchada pelo choque cultural. Se no passado as prostitutas no Japão se esforçaram para não ser confundidas com as gueixas, desde o período da ocupação as prostitutas passaram a querer ser confundidas com gueixas.
Uma nova fase de prosperidade se iniciou no Japão a partir de 1953, que culminou na atual condição de 2ª maior economia do mundo. Cultivando tradições, a gueixa se permitiu algumas modernidades, como falar inglês e entreter estrangeiros (nos tempos de Okichi e Yuki Morgan, elas o faziam a contragosto e só se fossem ordenadas). E para desfazer a equivocada imagem que o ocidente tinha das gueixas, o governo passou a chamá-las para ciceronear e entreter personalidades estrangeiras em visitas oficiais ao Japão, como a Rainha Elizabeth II e o Príncipe Charles da Inglaterra, o Rei Hussein e a Rainha Aliya da Jordânia e o Presidente Gerald Ford - o primeiro presidente americano a visitar o Japão após a 2ª Guerra.

A GUEIXA MODERNA
Ser uma gueixa é mais do que uma mera profissão. É um estilo de vida que exige total e absoluta dedicação. É aceitar acima de tudo que será uma vida de servidão, que eventualmente terá grandes recompensas. Como tudo no Japão, ser gueixa é também um do, um caminho a ser percorrido pelo resto da vida. Karyukai, "o mundo da flor e do salgueiro", é o nome que se dá ao mundo das gueixas. Cada gueixa é como uma flor e um salgueiro: bela em seu próprio modo de ser como uma flor; graciosa, flexível mas forte como um salgueiro.
Há poucas décadas atrás, era comum meninas de 8 a 14 anos serem adotadas por okiyas - até mesmo vendidas pelas famílias às casas, prática que foi proibida após a 2ª Guerra. Uma lei determinando que o segundo grau completo é requisito obrigatório para os que se candidatam a uma profissão no Japão, fez com que as casas de gueixa passassem a aceitar meninas só a partir dos 17 anos de idade. Se por um lado pegar crianças para treinar como gueixas tem o benefício de dispor de mais tempo para uma educação mais cuidadosa, por outro lado é óbvio que uma criança não tem como escolher se aquilo que ela está sendo educada para fazer é aquilo que ela efetivamente quer fazer pelo resto da vida. Com tantas oportunidades que existem para a mulher na moderna sociedade japonesa, a deserção de gueixas de okiyas que investiram em seu treinamento e sustento tornou-se relativamente freqüente. Cada gueixa que deserta deixa um prejuízo considerável para a casa que a recebeu (calcula-se que o valor mínimo gasto com a educação e quiminos de uma gueixa é de 500 mil dólares). Jovens um pouco mais maduras, que decidem tornar-se gueixas por opção, tornaram-se mais interessantes para as casas.
O treinamento básico de uma jovem gueixa dura no mínimo 5 anos. As jovens gueixas aprendizes são chamadas maiko (mulher da dança). Enquanto aprendizes elas dedicarão seus dias a aulas de dança, canto, música, literatura, e na prática de uma etiqueta que mudará seus modos, gestos, até a linguagem corporal, para alcançar o padrão de elegância que se espera de uma gueixa. À noite, ela irá a festas e banquetes para entreter os convidados e observar atentamente as gueixas experientes, para aprender como agir e se portar vendo o exemplo delas. A esta prática dá-se o nome de minarai (aprender vendo). Em média, paga-se de 500 a mil dólares por hora por gueixa, sendo que nunca uma gueixa vai sozinha. Quando se "contrata uma gueixa", contrata-se no mínimo duas.
Ter namorados ou relacionamento sexual com clientes nesta fase está fora de questão. No passado, em tempos em que as gueixas eram virtuais escravas da casa, houve até a iniciação sexual de maikos através de "leilões de virgindade", praticados por okaasans tiranas e gananciosas. Tal prática foi abolida após a 2ª Guerra. Hoje, com direitos garantidos e várias opções de carreira profissional para as mulheres, nenhuma gueixa pode ser obrigada a permanecer numa okiya ou numa atividade contra sua vontade. Para evitar prejuízos com uma desistência e garantir a continuidade de suas okiyas, as atuais okaasans procuram tratar bem suas maikos e geikos. Sinal dos tempos.
Duas cerimônias marcam a passagem de gueixa adolescente para gueixa mulher. Por volta dos 18 anos ocorre a cerimônia do mizu-age (subida das águas), no qual uma maiko muda de penteado 5 vezes e, se quiser, perde a virgindade com um de seus clientes. Trata-se de um rito de passagem pelo qual a jovem gueixa passa a ser reconhecida como mulher, e ela passa a receber tanto propostas de casamento de clientes (sendo que ao se casar ela deixa de ser gueixa), como propostas para tornar-se amante de um deles (caso no qual ela pode tornar-se independente da casa à qual pertence mas continuar trabalhando como gueixa). Ser virgem aos 18 anos em tempos como os de hoje, nos quais adolescentes de 15 têm mais experiência no assunto que as maikos, é algo que deixa admirados os que têm na mente a idéia estereotipada da gueixa como uma expert no "Kama Sutra".
Quando suas habilidades já são consideradas suficientemente maduras, a jovem gueixa ganha o status de geiko (mulher da arte), o que atualmente ocorre entre 20 e 23 anos de idade. Enquanto maiko, a gueixa usa quimonos com cauda e obi largo em cascata nas costas, sempre com colarinho estampado ou colorido, maquiagem ultra-branca e o grande penteado com pente de casco de tartaruga, flores e pingentes metálicos. Ao se tornar uma geiko, ela passa a usar colarinho branco, quimonos mais discretos e penteados mais simples, ganhando uma aparência mais adulta e mais elegante. A cerimônia na qual uma gueixa aprendiz passa a ser considerada uma gueixa experiente chama-se erikae (mudança de colarinho). Isso também implica em novas responsabilidades para a geiko em relação à okiya, bem como manter-se um exemplo para as demais gueixas e auxiliar as mais jovens em seu aprendizado. As aulas de literatura, etiqueta, música, canto, dança e arranjo floral, entretanto, continuam até os 40 anos de idade. Atualmente, aulas de inglês também fazem parte do currículo.
Esta foi uma breve descrição de como são formadas as gueixas mais refinadas e caras do Japão, como as das casas de gueixas de Gion e Pontochõ em Kyoto, e de Akasaka em Tóquio. Existem também as onsen geisha (gueixas de termas), que apesar do nome são prostitutas que adotam só a aparência e se valem da fama das gueixas. São falsas gueixas que se apresentam durante o dia em teatros baratos nas cidades turísticas onde há termas, e fazem de programas com turistas à noite sua principal fonte de renda. Usam perucas e quimonos teatrais, bons o suficiente para iludir os que nunca viram uma gueixa de verdade (que são muitos, mesmo entre os japoneses), mas nada possuem da postura e das maneiras elegantes características da verdadeira gueixa. Não se pode esperar de uma onsen geisha, portanto, a capacidade de guardar segredos ou de ser discreta, como fazem as verdadeiras gueixas.
Que o diga o ex-Primeiro-ministro Sõsuke Unõ. Em junho de 1989, ao alcançar o posto máximo que um político pode almejar na carreira no Japão, Unõ tornou-se centro de um escândalo quando sua amante gueixa foi à mídia para revelar o caso e acusá-lo de avareza e arrogância. Tamanha foi a repercussão negativa, que Unõ teve que se demitir após somente dois meses no cargo. Por ter quebrado a regra nº 1 das gueixas - o voto de segredo - a comunidade das gueixas entendeu que a amante de Unõ sequer fosse uma gueixa. Quando muito, uma prostituta que se passava por gueixa. Gueixa ou não, o caso Unõ demonstrou que houve uma grande mudança de valores sociais no Japão, pois a relação extra-conjugal de um político com uma gueixa, algo que há muito tempo era aceito com naturalidade, deixou de sê-lo. As esposas japonesas, que hoje são também eleitoras, deixaram de ser tão complacentes e tolerantes com as amantes de seus maridos. A opinião pública masculina, por sua vez, achou que Unõ errou ao querer ter uma amante gueixa sem ter condições financeiras para tanto, ou seja, queria aparentar um status que não tinha condições de manter.

FUTURO INCERTO
Gueixas podem se casar, mas ao se casar deixam de ser gueixas. É comum elas se casarem com filhos ou netos de seus clientes - os próprios clientes normalmente se propõem a arranjar tais uniões. Mas via de regra, o marido japonês prefere que sua esposa não trabalhe fora, dedicando-se exclusivamente ao lar. Para uma mulher criada para dançar, tocar música, e acostumada a um estilo de vida de festas e quimonos caros, o papel de esposa confinada em casa é difícil de assimilar. Por isso, ao invés do casamento, muitas gueixas preferem permanecer solteiras e viver na okiya, dedicando-se ao karyukai até a morte. Ou, com sorte, arranjar um bom e rico danna.
Danna em japonês significa "patrono", mas no meio das gueixas designa um cliente que decide assumir uma gueixa como amante exclusiva. Normalmente os clientes de gueixas costumam ser bem mais velhos que elas - na meia-idade ou já na terceira idade, pois é em tal faixa etária que os homens alcançam o sucesso pessoal e financeiro. Quando um deles quer que uma determinada gueixa seja sua amante, ele deve negociar isso com a okaasan. Além de uma quantia a título de compensação à okiya pela educação e hospedagem da gueixa (algo que envolve algumas dezenas de milhares de dólares), a okaasan faz algumas exigências pela gueixa, para garantir que ela tenha um padrão de vida condizente com o que está acostumada, como uma casa ou apartamento próprio e uma mesada. Se o danna concordar com as exigências, e a gueixa aceitá-lo e estiver satisfeita com as condições, a gueixa torna-se independente. Mamika, famosa e refinada gueixa de Gion nos anos 90, revelou em entrevista para um documentário da tevê norte-americana que além de um confortável apartamento em Kyoto e uma mesada de 8 mil dólares, seu danna ainda lhe deu um título de sócia de um exclusivo clube de golfe e permitiu que ela continuasse atuando como gueixa. Mas quem é o seu danna, ela não revelou e nem deu pistas.
Ter um danna é o ideal de uma gueixa. Sendo amante, o danna não irá morar permanentemente com ela, mas irá visitá-la de tempos em tempos, quando então ela se dedicará totalmente a ele. E se ele concordar, quando ele não estiver ela continuará a trabalhar como gueixa. Em tais casos, a gueixa costuma trabalhar em colaboração com outras gueixas de sua casa de origem apresentando-se em jantares, com a diferença de que ela é quem fará sua própria agenda e escolherá os clientes - algo que antes era feito pela okaasan. Manter segredo sobre seu danna e fidelidade a ele são considerados deveres da gueixa. Se ela faltar com tais deveres, a comunidade a isolará, o que tornará impossível que ela continue trabalhando como gueixa. Há, obviamente, muitas vantagens em ter um danna, mas o lado obscuro disso é que a gueixa pode ficar para sempre presa a alguém que não ama.
A atividade das gueixas sempre refletiu o grau de prosperidade econômica do próprio Japão. Quando os negócios vão bem, os clientes são numerosos e generosos. Quando há recessão, as agendas se esvaziam e gueixas se aposentam. Se nos anos da "bolha econômica" as gueixas tinham agenda lotada até a madrugada, atualmente há dias totalmente livres. Além de tais dificuldades, a própria atividade da gueixa hoje está ameaçada pela mudança de valores da sociedade japonesa, causada pela ocidentalização do pós-guerra.
Desde o fim da 2ª Guerra, o Japão foi reconstruído à imagem dos Estados Unidos. Tal influência propiciou rápido crescimento econômico e mudou de súbito valores e hábitos na sociedade japonesa. Em curto período, as mulheres passaram a estudar mais e a desenvolver carreiras que antes não lhes eram permitidas nos negócios e na política. Antes da guerra, na sociedade japonesa as mulheres eram subordinadas aos homens e viviam quase sempre em grupos e ambientes separados, nas escolas, no trabalho, no dia-a-dia. Parte do fascínio da gueixa estava no fato delas serem as poucas mulheres com quem homens podiam se relacionar em nível de parceria. Hoje, com oportunidades mais justas, homens e mulheres disputam os mesmos espaços e cargos, e procuram mais a parceria que a subordinação. Tais fatores, embora positivos, reduziram o apelo que a gueixa tinha.
Impulsionado pela tecnologia da internet e da telefonia móvel, o sexo no Japão virou um produto fácil, barato e oferecido em larga escala. O enjo kõsai (relacionamento financiado) é um serviço no qual estudantes colegiais se oferecem para programas, marcando encontros pelo celular. Sendo menores de idade, essas colegiais preferem usar o celular ao invés da internet, para não deixar evidências que podem ser vistas pelos pais. Na internet, além das modalidades mais corriqueiras de prostitutas, há outras que oferecem até donas de casa, "office ladies" e falsas gueixas: há de todos os feitiches para todos os gostos. Com tanta oferta no mercado do sexo, não faz sentido para os homens, principalmente os jovens, pagar uma fortuna para ter a companhia de uma gueixa e não ir automaticamente para a cama com ela. O menosprezo pela tradição também faz com que a gueixa lhes seja incompreensível e fora de moda. Os nostálgicos costumam criticar a "ocidentalização" excessiva de valores, que transforma tudo em mero comércio, e lamentam a perda da sensibilidade dos jovens para a sedução discreta e o refinamento da gueixa. Os japoneses entendem que mesmo para se deixar entreter por uma gueixa e apreciá-la, requer um certo grau de cultura do próprio cliente. A gueixa não é para qualquer um.
Talvez esteja neste ponto o valor da gueixa, e o que fará ela sobreviver: a raridade, a exclusividade, e a personificação daquilo que há de belo na alma do Japão. Ao longo dos séculos, as gueixas sobreviveram à mudança de governos e às guerras graças à dedicação de maikos e geikos determinadas, e à capacidade de se adaptarem a mudanças sem perder sua identidade. Dizer que elas estão ultrapassadas é um exagero. As gueixas continuam sendo um parâmetro de talento, elegância, beleza e caráter feminino na sociedade japonesa - senão não haveriam tantas imitadoras. Considere-se que mesmo no meio artístico atual, as cantoras do popular estilo enka procuram adotar o visual e os modos elegantes das gueixas. Dificuldades existem, mas certamente há futuro para a tradição da gueixa.

Cristiane A. Sato